Xuxa, bilhetes e gatilhos positivos: os bastidores da prata da ginástica no Mundial

Esportes

Música “Lua de Cristal” foi um dos fatores que impulsionaram o time feminino a buscar o resultado inédito na prova por equipes; entenda esse e outros detalhes da conquista do Brasil na Antuérpia

Por Lorena Dillon 

Um dos hits mais conhecidos de Xuxa, ” Lua de Cristal”, foi a música escolhida por Juliana Fajardo para motivar a equipe feminina a conquistar a inédita medalha de prata, no Mundial da Antuérpia, na última quarta. Aos 40 anos, Juliana fez parte da legião de “baixinhos” que cresceram ouvindo “tudo pode ser, só basta acreditar” , uma música que traz na letra palavras de incentivo e de autoconfiança, justamente o trabalho adotado há 10 anos pela equipe multidisciplinar presente nos bastidores com as ginastas diariamente.

A segurança de Júlia Soares, Lorrane Oliveira, Flávia Saraiva, Jade Barbosa e Rebeca Andrade chamou a atenção durante a final. O mental forte para lidar com as adversidades, como a queda na trave, e ainda assim, acreditar que era possível conquistar a medalha, vem de um longo projeto começado em 2013 pelo Comitê Olímpico do Brasil, liderado pela gestora esportiva Juliana Fajardo.

– Nosso objetivo com “Lua de cristal” era pegar a letra que fala muito do trabalho em grupo e transformar em mantra. Elas acreditavam no que elas poderiam fazer, e não no que precisavam fazer. Era realmente mudar a chave para o ” o que posso fazer”. Não tinha uma cobrança individual, mas um trabalho de apoio no grupo. Não queríamos que elas ficassem preocupadas com as outras adversárias. Elas focaram entre elas no que elas podiam fazer e fez muita diferença – revelou com exclusividade ao ge sobre a música tocada antes da classificatória e da final, e também celebrada por toda a comissão técnica após a conquista.

O trabalho de formiguinha feito na última década foi resultado de um conjunto de profissionais focados nas particularidades da ginástica, um esporte que abrange vários em um. No caso feminino, quatro aparelhos, e no masculino, seis. Após compreenderem as dificuldades individuais de cada atleta, a equipe multidisciplinar pôde desenvolver protocolos para que cada ginasta pudesse melhorar não apenas na técnica, mas também fisicamente e mentalmente.

– Quando a gente entendeu que físico, psicológico e mental trabalham juntos, saímos na frente. Nossa equipe sofria de muitas lesões, então entendemos que precisávamos investir para que as meninas pudessem estar fortes fisicamente, o que impactava no mental, ou seja, isso fazia elas estarem bem para treinarem mais forte, o que melhorava a técnica. A virada de chave foi acreditar que era possível. Conseguimos transformar isso ao longo dos anos – contou sobre o processo de descobertas no trabalho diário com os ginastas.

Juliana também explicou que a equipe multidisciplinar foca na autorregulação, um trabalho individualizado para compreender os gatilhos e trabalhar em cima disso para que o atleta possa aplicar durante momentos decisivos, como uma final de Mundial.

— Como ele pode respirar, o que ele precisa pensar no momento de tensão. Ele pode pensar um elemento de cada vez , pensar cada movimento, viver o momento presente. Se o atleta entra na série já pensando na saída, ele faz no automático. É um esporte que exige atenção no momento presente total. Então fazemos ele pensar em gatilhos positivos. Levar para momentos positivos como os treinos bons onde ele acertou aquele elemento – revelou sobre a estratégia adotada no trabalho mental. No Mundial da Antuérpia, pela primeira vez a equipe teve a companhia de uma psicóloga para atender não apenas individualmente, mas de forma coletiva.

Um dos maiores nomes da ginástica mundial na atualidade, Rebeca Andrade é um bom exemplo de que o trabalho mental está sendo bem realizado. Apesar da pressão que naturalmente cai sobre ela, a campeã olímpica mais uma vez se manteve focada e determinada na conquista para o grupo.

– Todo mundo pôde ver nossa união, nossa gritaria, uma pela outra, pelo amor de deus grita porque senão eu não vou chegar até o final. Cada diagonal que eu fazia, eu dizia pra mim mesma: ‘isso garota, segura. Vai olha pra arbitragem, mostra essa coreografia. Vai, vai, pela equipe, pela equipe! Na última diagonal eu estava segura, segura. Eu conseguia pensar em tudo o que eu precisava fazer, tudo o que eu queria fazer e deu tudo certo!

Bastidores da equipe multidisciplinar trabalhando durante Mundial da Antuérpia — Foto: Arquivo pessoal

Bastidores da equipe multidisciplinar trabalhando durante Mundial da Antuérpia — Foto: Arquivo pessoal

A equipe multidisciplinar foi sendo capacitada durante os últimos dez anos para chegar no grupo atual, formado por preparador físico, psicólogo, psiquiatra, ortopedista, clinico geral, fisioterapeuta, nutrólogo, nutricionista, ginecologista e massoterapeuta. Os profissionais atuam no CT do Time Brasil, no Rio de Janeiro, em conjunto com o treinador para montar as séries de acordo com as lesões, dificuldades do aparelho, entre outros pontos de cada atleta.

– A gente estuda cada aparelho, quem é melhor em cada para montar uma série que seja segura para cada atleta, com aterrissagem segura para evitar lesões, para diminuir o risco. A gente precisava estar bem preparado para dar um passo a mais, e a gente conseguiu aqui isso hoje. Antigamente o técnico trabalhava sozinho, fazendo todos esses papéis de psicólogo, fisioterapeuta…. Hoje ele pode tomar a decisão em conjunto. Os atletas têm autonomia no trabalho, também têm abertura para opinar. É uma mudança de pensamento – falou sobre a evolução na cultura de trabalho dentro do ginásio, diferente de gerações passadas.

Equipe feminina celebra medalha de prata no Mundial da Antuérpia — Foto: CBG/Ricardo Bufolin

Equipe feminina celebra medalha de prata no Mundial da Antuérpia — Foto: CBG/Ricardo Bufolin

Quem agradece o trabalho feito a muitas mãos é o técnico da seleção, Francisco Porath Neto, que exalta a importância do coletivo em prol do trabalho bem feito.

– Ter uma equipe pensando em cada detalhe, cuidando de cada passo é muito importante, trocamos muito diariamente, planejamos, revisamos e seguimos sempre no mesmo propósito. A medalha de ontem foi conquistada a muitas mãos, ela estará no nosso CT para que possamos olhar para ela diariamente e saber que conseguimos juntos. São pequenas coisas que somadas fazem a diferença, desde um abraço até um olhar, dividir faz com que o trabalho flua – celebrou o resultado com belo gesto de doar a medalha aos colegas.

Juliana Fajardo e integrantes da comissão técnica celebram medalha de prata com equipe feminina — Foto: CBG/Ricardo Bufolin

Juliana Fajardo e integrantes da comissão técnica celebram medalha de prata com equipe feminina — Foto: CBG/Ricardo Bufolin

O trabalho bem feito tem se refletido não apenas na confiança das atletas e nos resultados obtidos nos últimos anos com medalhas em Mundiais e Olimpíadas, mas também tem sido reconhecido inclusive pela Federação Internacional de Ginástica.

– Recebemos da FIG ano passado o título de equipe mais feliz da competição e passamos isso para outro países. Para gente o mais importante era que elas fossem felizes. Vivessem cada momento e lembrassem de cada momento. Às vezes as atletas não se permitem viver isso. Elas não venceram por obrigação, elas foram felizes.

Juliana tem uma tradição de escrever um recadinho de incentivo atrás do papel de numeração de cada atleta. No Mundial de 2023, a frase foi justamente “seja feliz, brilhe”. Para o técnico, já passou ser a “mandinga” da seleção.

– Alto rendimento é construído no detalhe, não abro mão da Ju cuidar do número das meninas, ela sempre trás uma mensagem positiva, digo que ela fez sua magia, todos colocam uma energia positiva muito grande.

Recadinho escrito por Juliana Fajardo para cada atleta antes do Mundial de 2022, em Liverpool, como forma de incentivo — Foto: Arquivo pessoal

Recadinho escrito por Juliana Fajardo para cada atleta antes do Mundial de 2022, em Liverpool, como forma de incentivo — Foto: Arquivo pessoal

– Fazemos uma gestão humanizada. Todo mundo tem frustração e precisamos acolher esse ser humano. Mostrar que ela vai ter outras oportunidades. O atleta não é máquina, é ser humano como eu, como você, com medos e anseios. É um esporte que exige estar concentrado, precisa sorrir pra arbitragem, exige muito, o tempo inteiro – finalizou a entrevista, emocionada por colocar em prática a música que a fez sonhar na infância.