Principal rio de Roraima, Rio Branco começa a secar e tem cota abaixo da média para outubro

Notícia

Nível do Rio Branco baixou um metro desde setembro, quando se encerrou o período chuvoso. Governo do estado prepara campanha em resposta aos impactos.

Por Valéria Oliveira, g1 RR

Principal rio de Roraima, o Rio Branco tem perdido volume de água de maneira acentuada e está com o nível abaixo da média prevista para o mês de outubro. Na última medição da Agência Nacional de Águas (ANA), feita em 12 de outubro, o nível atingiu a marca de 1,05 metro – o ideal para o período seria de 2,10 – ou seja, está um metro mais seco.

O cenário de estiagem é monitorado pela Defesa Civil estadual, órgão do governo ligado ao Corpo de Bombeiros. Nesta segunda-feira (16), o governador Antonio Denarium (PP) lança a campanha “Verão Seguro” e deve divulgar apresentar ações de resposta aos impactos do período seco no estado.

Fonte de água potável que abastece a casa de moradores de Boa Vista, o Rio Branco foi um dos quatro principais rios da Bacia Amazônica com nível mais baixo já registrado no histórico de medições para o mês de setembro, segundo um relatório do Sistema Geológico Brasileiro (SGB) e da ANA.

Nível do Rio Branco, em Boa Vista, em setembro de 2023 — Foto: Ronny Alcântara/Rede Amazônica

Nível do Rio Branco, em Boa Vista, em setembro de 2023 — Foto: Ronny Alcântara/Rede Amazônica

Do Centro de Boa Vista, na Orla Taumanan, o baixo nível da água é notado de longe, com os bancos de areia que começaram a se formar entre uma margem e outra. Em 2016, quando o estado enfrentou uma das piores secas da história, o volume de água ficou em -59 centímetros.

A estiagem tem sido agravada pelo fenômeno El Niño, quando ocorre o aquecimento anormal do Pacífico equatorial. A avaliação é feita tanto pela Defesa Civil estadual, quanto pelo Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao governo federal, que monitoram o Rio Branco.

Para os próximos meses, as projeções indicam que o volume de água deve baixar ainda mais, o que deixa em alerta para eventos extremos de seca o primeiro trimestre de 2024, conforme explica a pesquisadora na área de hidrologia do Cemaden, Larissa Antunes.

“O mais preocupante em relação ao Rio Branco, em Roraima, é que as mínimas anuais [de volume de água] ocorrem geralmente entre os meses de fevereiro e março. Então, a tendência é a de que esse níveis continuem baixando”

— Larissa Antunes, pesquisadora da área de eventos extremos como seca e inundação no Cemaden

Os dados do rio Branco analisados pelo Cemaden são de duas estações em Roraima: uma na capital Boa Vista e outra em Caracaraí, no Sul do estado, região também banhado pelo mesmo rio. Historicamente, a maior cheia do Rio Branco foi em junho 2011, quando o nível chegou a 10,28 metros.

A seca no Rio Branco tem sido notada desde setembro deste ano, com o fim do período chuvoso no estado. Os municípios que mais têm preocupado autoridades locais são: Boa Vista, BonfimCantáAmajariNormandiaPacaraima e Uiramutã.

“Esses municípios sofrem de forma mais severa nesse período de El Niño prolongado porque os recursos hídricos tendem a se exaurir rapidamente, ante mesmo antes do período conhecido por ser de queimadas, ali entre janeiro e março”, explicou o chefe da Defesa Civil estadual, coronel Cleudiomar Ferreira.

Como consequência, Cleudiomar analisa que moradores que vivem nas zonas rurais podem ser o mais afetados. “A partir de novembro, se continuar esse período sem chuva, vai começar realmente a faltar água em poço, açude, os pequenos riachos vão secar”, destacou ele que tem acompanhado o assunto.

Água em Boa Vista

Toda água consumida por moradores de Boa Vista é de responsabilidade da Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer-RR), empresa de economia mista do governo. Em entrevista ao g1, o diretor-presidente da Companhia, James Serrador, garantiu que mesmo diante do cenário de seca acentuada, a população não corre o risco de sofrer racionamento ou desabastecimento de água.

Isso porque, segundo ele, a Caer-RR tem monitorado a vazão do rio e ampliou o potencial de captação de água. Ao todo, a água do Rio Branco é distribuída para 70% da população e os 30% são de poços artesianos perfurados em vários pontos da capital.

“Isso afeta realmente a captação de água, mas não compromete de maneira que o boavistense possa ficar sem água porque nos acoplamos uma bomba para captação de água na superfície do Rio Branco. Então, nós já tomamos essa providência e esperamos que com isso a gente consiga atenuar isso [seca]”, explicou James – além dessa, a Caer capta água do Rio Branco com outras três bombas submersas de grande magnitude.

Além das quatro bombas, a Caer conta com 94 poços artesianos que captam água do lençol freático e distribui aos moradores. Até o fim deste ano, a Companhia pretende perfurar mais 50 poços artesianos – 20 para a capital e 30 para o interior.

“Estamos com um processo de licitação, marcado para outubro, para contratação de 50 poços artesianos”, disse James, acrescentando a ideia é que os poços sejam perfurados em novembro para que até janeiro os moradores passem a consumir a água desses novos poços.

A Caer distribui água para cerca de 115 mil unidades consumidas na capital, entre casas, prédios comerciais e prédios públicos. Mas, o diretor-presidente considera toda a população de 413 mil como consumidores de água.

James Serrador também pediu para que, diante do cenário, as pessoas façam o uso consciente de água. “A água é um bem finito. As pessoas têm que parara de desperdiça água potável e fazer o uso racional”, pontuou.

Atualmente, a Caer informou que distribui 1800 litros de água por segundo para a população. Em 2019, eram 1.300 litros por segundo – um aumuento de 44%.