CPI dos Atos Golpistas: relatora Eliziane Gama lê relatório final dos trabalhos

Política

Parecer da senadora Eliziane Gama (PSD-MA) deve pedir o indiciamento de políticos e militares. Acordo prevê que votação seja na quarta e oposição apresente ‘relatórios paralelos’.

Por Kevin Lima, Vinícius Cassela, Sara Resende, Marcelo Parreira, Julio Mosquera, g1 e TV Globo

A CPI dos Atos Golpistas abriu nesta terça-feira (17) a sessão destinada à leitura do relatório final dos trabalhos. A relatora, senadora Eliziane Gama (PSD-MA), começou a leitura por volta das 9h40.

A TV Globo apurou que o documento tem mais de 1.100 páginas e deve pedir dezenas de indiciamentos, entre autoridades e militares.

O acordo entre os membros da comissão prevê que, além do relatório de Eliziane, haverá textos paralelos apresentados pela oposição. O relatório definitivo será escolhido em votação prevista para esta quarta (18).

“As investigações aqui realizadas, os depoimentos colhidos, os documentos recebidos permitiram que chegássemos a um nome em evidência e a várias conclusões. O nome é Jair Messias Bolsonaro. Como se verá nas páginas que se seguem, a democracia brasileira foi atacada, massas foram manipuladas com discurso de ódio, milicianos digitais foram empregados para disseminar o medo […]”, diz trecho da introdução do documento.

“O 8 de janeiro é obra do que chamamos de bolsonarismo. Diferentemente do que defendem os bolsonaristas, o 8 de janeiro não foi um movimento espontâneo ou desorganizado. Foi uma mobilização idealizada, planejada e preparada com antecedência”, prossegue o texto.

O parecer é uma das obrigações das comissões de inquérito. É produzido ao final dos trabalhos e serve como documento definitivo do colegiado.

No texto, além de sugerir o indiciamento criminal de pessoas, é possível apresentar propostas ao Congresso. As conclusões são encaminhadas aos órgãos responsáveis por promover eventuais responsabilizações de condutas criminosas apontadas no documento.

Em geral, o conteúdo é enviado ao Ministério Público e à Advocacia-Geral da União e às polícias. Cabe a esses órgãos, portanto, decidir pela apresentação de denúncias baseadas no relatório.

Linha do tempo

De acordo com Eliziane Gama, além dos fatos que envolveram a preparação, incitação e realização dos atos de 8 de janeiro, o relatório final da CPI deverá abordar episódios anteriores que teriam, em tese, inflamado intenções golpistas pelo país.

Essa “linha do tempo” já havia sido definida pela relatora na apresentação do plano de trabalho do colegiado.

“O relatório final é sustentado no plano de trabalho. Então, nada fugirá daquilo que consta, na verdade, no plano de trabalho que nós apresentamos logo no primeiro dia dos trabalhos da comissão”, afirmou a senadora.

Entre as linhas de investigação previstas no cronograma dos trabalhos, aprovado pela CPI em junho, estão:

  • 2º turno das eleições de 2022;
  • minuta de decreto golpista;
  • manifestações em rodovias nacionais;
  • ataques à sede da Polícia Federal e ao aeroporto de Brasília, em dezembro de 2022;
  • acampamento golpista no Quartel-General do Exército;
  • participação de membros das Forças Armadas em manifestações e articulações golpistas.

CPMI

Com o parecer, a CPI dos Atos Golpistas — instalada para apurar os atos golpistas de 8 de janeiro — chegará ao fim, após cinco meses de trabalho, sob protestos da oposição contra a predominância governista no colegiado.

Antes defendida pela oposição, a CPI foi marcada pela estratégia da base aliada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para ampliar a sua influência nos encaminhamentos da comissão.

A predominância governista — que deve pavimentar uma fácil aprovação do texto de Eliziane — foi sinalizada na última reunião do colegiado, quando parlamentares de oposição foram derrotados, por 14 votos a 10, ao tentar convocar a depor um dos coordenadores da Força Nacional.

Militares e omissão da PM

Grande parte da comissão de inquérito foi voltada para apurar a influência e a eventual participação de militares da ativa e da reserva em ações de cunho golpista.

Dos 20 depoimentos colhidos pelo colegiado, 10 foram de militares das Forças Armadas e da Polícia Militar do Distrito Federal.

Do lado das Forças Armadas, ganharam destaque as apurações sobre o entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a suposta inércia da cúpula do Exército diante dos acampamentos com intenções golpistas espalhados por quartéis de todo país.

Já na linha de investigação da PMDF, o colegiado focou na suposta omissão da cúpula da corporação em conter os atos de 8 de janeiro. Isso porque a segurança da Esplanada dos Ministérios cabe à Polícia Militar do DF.

Questionada nesta segunda-feira (16) se haveria militares na lista de pessoas indiciadas, Eliziane desconversou. A possibilidade tem sido avaliada com cautela — mesmo com pedidos da base governista — para não levar a tensões e “generalização” com as Forças Armadas.

“Nós ouvimos diferentes patentes aqui nessa comissão. É natural que, no nosso relatório, nós também tenhamos indiciamentos, né? Agora, eu não posso, na verdade, antecipar neste momento. A gente tomou a decisão de fazer esse encaminhamento final apenas no relatório do dia de amanhã, mas o olhar voltado para os militares não há dúvida nenhuma que estará consignado”, afirmou.

Governistas também têm apontado que informações colhidas pela CPI poderiam sustentar uma sugestão de indiciamento do ex-presidente Bolsonaro.

Na tarde de segunda (16), Eliziane Gama não disse se havia acolhido os apelos.

“Quanto ao ex-presidente, amanhã a gente apresentará ao Brasil, ou não, acerca do seu indiciamento”, afirmou.

Relembre os depoimentos da CPI dos Atos Golpistas

Propostas legislativas

O parecer de Eliziane também deverá trazer propostas legislativas ao Congresso.

Um dos projetos cria, na área externa do Senado, um memorial em homenagem à democracia brasileira. A ideia é semelhante à adotada pela CPI da Covid do Senado, que propôs a criação de um memorial em homenagem às vítimas da Covid-19, no ambiente interno da Casa.

A poucas horas da entrega do relatório, na segunda-feira (16), a senadora recebeu um documento com 12 sugestões de entidades civis.

Regulação de redes sociais e uma proposta de Emenda à Constituição (PEC) para estabelecer que as Forças Armadas só podem agir se convocadas por um dos Três Poderes estão entre os projetos entregues à Eliziane, que se comprometeu a avaliar e eventualmente incluir os textos.