Antes do crime do pai de Collor: briga de deputados acabou em morte em 1929

Política

Por Felipe van Deursen

Antes do crime do pai do Collor: em 1929, briga entre deputados terminou em morte

Na corrida presidencial de 1929, briga entre deputados terminou em morte

Há 60 anos, o pai do ex-presidente Fernado Collor de Melo matou um colega no Senado e saiu impune. Mas esse não foi o primeiro assassinato entre colegas parlamentares na política brasileira.

O Brasil vivia um clima político ríspido e polarizado em dezembro de 1929. O país estava a poucos meses da eleição presidencial, disputada entre o paulista Júlio Prestes, candidato da situação, e o gaúcho Getúlio Vargas.

O governo do presidente Washington Luís recomendava a seus aliados no Congresso a tática de debandada, a fim de impedir, sempre que possível, o quórum mínimo das sessões. Isso ajudaria na campanha de Prestes, então presidente (cargo equivalente ao de governador) de São Paulo, ao deixar os deputados oposicionistas isolados no plenário.

A Aliança Liberal, formada em apoio à candidatura de Getúlio Vargas, reagia de maneira espalhafatosa. Os deputados da coligação.

Nas escadarias do belo palácio em estilo eclético, hoje sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, os políticos inflamavam centenas de pessoas que assistiam aos discursos.

Se o Catete [sede da Presidência da República] intentara esvaziar as discussões em plenário, os aliancistas haviam levado a tribuna para o meio da rua, dando ainda mais visibilidade aos protestos contra o governo federal, escreveu o jornalista Lira Neto no primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas (Cia. das Letras).

Foi em um dia desses, de climas exaltados dentro e fora do palácio, que a Câmara dos Deputados vivenciou um episódio até então inédito, que teria desdobramentos imediatos na história brasileira. Em 26 de dezembro de 1929, um deputado gaúcho matou um deputado pernambucano dentro do Congresso.

O crime

Ildefonso Simões Lopes, 66 anos, era um político com larga carreira. Engenheiro bem-sucedido, filho das elites gaúchas de Pelotas ligadas às charqueadas, foi deputado estadual e federal algumas vezes.

Como ministro da agricultura, indústria e comércio no governo Epitácio Pessoa (1919-22), criou cursos técnicos de agricultura prática, apoiou o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil para explorar o petróleo e o carvão nacionais e vistoriou obras contra as secas ao lado do marechal Cândido Rondon.

Deixou o cargo por divergências entre sua sigla, o Partido Republicano Rio-Grandense, e o governo federal. Em 1929, era vice-presidente da Aliança Liberal – portanto, um dos principais aliados de Vargas.

Manuel Francisco de Sousa Filho, 43 anos, era um deputado federal em segundo mandato. Advogado e jornalista, esteve próximo da política pernambucana desde o berço: o pai fora prefeito de sua cidade natal, Petrolina. Mas a carreira política começou na Bahia. Ele foi intendente (correspondente a prefeito) de Juazeiro, do outro lado do São Francisco, e deputado estadual antes de se tornar deputado federal por Pernambuco.