Governo quer evitar ‘uso político’ de operação contra terrorismo em meio ao conflito Israel x Hamas

Política

Por Valdo Cruz, Ricardo Abreu, Fábio Amato

O Palácio do Planalto definiu uma orientação sobre como vai lidar com as repercussões da operação da Polícia Federal que, nesta quarta-feira (8), prendeu dois suspeitos de manterem ligações com terroristas do grupo armado libanês Hezbollah e articularem atos de terror no Brasil.

O governo brasileiro agradece e conta com toda a colaboração internacional na área policial, mas não admitirá o uso das operações com fins políticos e diplomáticos no conflito entre Israel e Hamas, deflagrado há um mês.

No Planalto, a ordem é ressaltar a importância da troca de informações entre os serviços de inteligência – que pode, de fato, ter evitado um ataque terrorista no país –, mas não usar o caso para atacar este ou aquele lado da guerra no Oriente Médio.

O Itamaraty endosse essa avaliação do Palácio do Planalto e do Ministério da Justiça. Mas, internamente, destaca a importância de que o Brasil não crie um clima de beligerância com Israel.

A preocupação do governo brasileiro é de que uma posição de confronto, neste momento, prejudique a retirada dos brasileiros na Faixa de Gaza – que já está complicada e vem gerando instabilidade nas relações diplomáticas.

“É uma operação policial. Então, que a manifestação fique com a polícia”, comentou um diplomata brasileiro.

O recado do governo, até o momento, foi veiculado em público pelo ministro da Justiça, Flávio Dino, responsável pela atuação da Polícia Federal.

Em uma postagem em rede social nesta quinta (9), Dino elogiou a colaboração policial, mas criticou a antecipação de resultados por parte do governo de Israel.

Leia abaixo a postagem:

1. O Brasil é um país soberano. A cooperação jurídica e policial existe de modo amplo, com países de diferentes matizes ideológicos, tendo por base os acordos internacionais.

2. Nenhuma força estrangeira manda na Polícia Federal do Brasil. E nenhum representante de governo estrangeiro pode pretender antecipar resultado de investigação conduzida pela Polícia Federal, ainda em andamento;

3. Quem faz análise da plausibilidade de indícios que constam de relatórios internacionais são os delegados da Polícia Federal, que submetem pedidos ao nosso Poder Judiciário;

4. Os mandados cumpridos ontem, sobre possível caso de terrorismo, derivaram de decisões do Poder Judiciário do Brasil. Se indícios existem, é DEVER da Polícia Federal investigar, para CONFIRMAR OU NÃO as hipóteses investigativas;

5. A conduta da Polícia Federal decorre exclusivamente das leis brasileiras, e nada tem a ver com conflitos internacionais. Não cabe à Polícia Federal analisar temas de política externa;

6. As investigações da Polícia Federal começaram ANTES da deflagração das tragédias em curso na cena internacional;

7. Apreciamos a cooperação internacional cabível, mas repelimos que qualquer autoridade estrangeira cogite dirigir os órgãos policiais brasileiros, ou usar investigações que nos cabem para fins de propaganda de seus interesses políticos;

8. Quando legalmente oportuno, a Polícia Federal apresentará ao Poder Judiciário do Brasil os resultados da investigação técnica, isenta e com apoio em provas analisadas EXCLUSIVAMENTE pelas autoridades brasileiras.