Investigação que derrubou primeiro-ministro de Portugal tem suspeita de erro de transcrição em escuta

Notícia

António Costa renunciou ao cargo na última semana, após ter sido alvo de uma investigação sobre um suposto esquema irregular de exploração de lítio e de hidrogênio verde.

Por G1

O Ministério Público de Portugal pode ter errado na transcrição de uma das escutas da operação policial que levou o primeiro-ministro do país, António Costa, do Partido Socialista, a renunciar ao cargo na última semana.

A operação investiga um suposto esquema irregular de exploração de lítio e de hidrogênio verde por parte do governo português. (Entenda mais abaixo)

A transcrição da gravação, feita de uma conversa entre um consultor e um administrador da empresa Start Campus, teria confundido o premiê com o ministro da economia de Portugal, António Costa Silva.

A afirmação foi feita a jornalistas por Manuel Magalhães e Silva, advogado de um dos investigados, o consultor Diogo Lacerda Machado.

Segundo o advogado, o engano teria acontecido por conta da omissão do sobrenome do ministro da economia português.

Isso porque, durante a conversa, Machado teria recebido um pedido do administrador da Start Campus, Afonso Salema, para que solicitasse à Comissão Europeia uma mudança nas normas de atividade econômica para datacenters.

Machado, então, teria respondido que tentaria “decifrar” em qual ministério o tema precisaria ser tratado. “Se for finanças, eu falo logo com o Medina [ministro das Finanças português] ou com o António Mendes, que é secretário do Estado. Se for economia, arranjo maneira depois de chegar ao próprio António Costa [nesse caso, referindo-se ao ministro da Economia]”, disse.

O anúncio da investigação sobre corrupção, na semana passada, fez o primeiro-ministro renunciar. Ele segue como governante interino até março, quando o país terá eleições antecipadas.

g1 procurou o Ministério Público português para saber se o órgão reconhece o erro e mais detalhes sobre quais os efeitos disso na investigação e quais os próximos passos da operação, mas não obteve retorno até a última publicação desta reportagem.

O suposto esquema e a operação

Segundo a Procuradoria-Geral da República portuguesa, as investigações que geraram os mandados de busca, apreensão e detenção apuram supostas irregularidades em contratos do governo para a exploração de lítio em minas portuguesas, além da produção de energia a partir de hidrogênio.

Três projetos diferentes, no total, são investigados no mesmo caso:

  • Concessões de exploração de lítio nas minas do Romano, no vilarejo de Montealegre, e do Barroso, no município de Boticas. Ambos ficam no norte do país;
  • Um projeto para uma central de produção de energia a partir de hidrogênio na cidade de Sines;
  • Um projeto para a construção de um datacenter, também em Sines, pela empresa Start Campus.

Ainda segundo a PGR portuguesa, a operação policial feita na manhã de 7 de novembro cumpriu 42 mandados de busca a apreensão, entre eles:

  • A sede do Ministério de Infraestrutura;
  • A sede do Ministério de Meio Ambiente;
  • A Secretaria do Estado de Energia e Clima;
  • Empresas investigadas no caso.

Além do premiê, o Ministério Público português também afirmou que o ministro de Infraestrutura de Portugal, João Galamba, é um dos investigados no caso. Foi a primeira vez que promotores nomearam os suspeitos desde o início.

A renúncia do premiê

O anúncio da investigação sobre corrupção fez o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, renunciar ao cargo. Ele segue como governante interino até março, quando o país terá eleições antecipadas.

“Obviamente apresentei minha demissão”, disse Costa em pronunciamento ao país na semana passada, no qual negou participação nas irregularidades. “Encerro com a cabeça erguida. Não me pesa na consciência a prática de qualquer ato ilícito ou sequer de qualquer ato censurado”.

Próximos passos

António Costa seguirá sendo investigado pelo inquérito, que, segundo a PGR, corre de forma independente no Supremo Tribunal de Justiça de Portugal.

Vale lembrar que, pela legislação portuguesa, o premiê não precisaria renunciar mesmo sendo alvo de uma investigação. Apenas se ele fosse formalmente acusado pelo Ministério Público, a sua demissão seria avaliada pela Câmara dos Deputados do país.

Após audiência de custódia, todos os detidos na operação sobre o suposto esquema de corrupção já foram liberados. O Ministério Público de Portugal também retirou as acusações de corrupção e prevaricação. Mas manteve a de tráfico de influências.