País já enfrentou incursões terrestres no território, mas desta vez Netanyahu está sob pressão do público interno e corre o risco de atolar-se numa extensa guerra com o Hamas, sob o custo de perder os sequestrados.
Por Sandra Cohen
Embora Israel tenha enfrentado grupos palestinos em cinco guerras em Gaza nos últimos 15 anos, desta vez as circunstâncias oferecem um cenário inédito e bem mais complexo.
Partem de um ataque terrorista devastador, com 700 mortos até agora, e envolvem a presença de 130 reféns, levados à força para o território de 365 quilômetros quadrados, onde vivem dois milhões de pessoas.
A chance de uma incursão terrestre das forças israelenses nos próximos dias no território palestino tornou-se concreta, mas qualquer operação militar terá que levar em conta os civis, entre idosos, mulheres e crianças, que estão em poder do Hamas e da Jihad Islâmica.
A comoção popular em Israel mistura-se à frustração de parentes pela falta de informações sobre os desaparecidos e faz do premiê Benjamin Netanyahu um refém da pressão da opinião pública.
Incursões terrestres costumam ser evitadas por serem devastadoras numa área tão densamente povoada como Gaza, e resultam em pesadas baixas. No campo palestino, os danos são desproporcionais, atingindo gravemente a população civil.
Foi assim na Operação Chumbo Fundido, ordenada nos últimos dias de 2008, após o lançamento de mais de 200 foguetes Qassam de Gaza ao sul do país, marcando o fim de um cessar-fogo que vigorava há seis meses.
No ano anterior, Israel havia se retirado unilateralmente do território, que passou a ser comandado pelo Hamas.
Em apenas um dia de ataques aéreos, 230 palestinos foram mortos naquela guerra. A invasão terrestre se deu depois de uma semana de bombardeios e durou 14 dias, resultando na morte de 1.387 palestinos, mais da metade civis, e 13 soldados israelenses.
Nova — e mais letal – incursão terrestre ocorreu em 2014, durante a Operação Margem Protetora, uma campanha militar de 50 dias desencadeada após o sequestro e assassinato de três adolescentes israelenses e a morte de um jovem palestino, queimado vivo por radicais.
A ofensiva terrestre começou nove dias após o início dos bombardeios, com o objetivo de destruir túneis subterrâneos construídos em Gaza. Mais de dois mil palestinos e 74 israelenses morreram nesta guerra.
Como primeiro-ministro mais longevo de Israel, Netanyahu nunca escondeu preferir bombardeios aéreos a ofensivas terrestres, para atenuar o desgaste interno gerado pelas perdas de soldados e preservar a sensação de segurança.
Desde sábado (7) o premiê lida com um dilema inédito em sua carreira política. Embora ele tenha ameaçado reduzir Gaza a terra arrasada, suas palavras se perderam diante de um público interno atônito pela crueldade do ataque.
A tomada de reféns mudou a equação do jogo e tornou praticamente inviável para Netanyahu percorrer o caminho já conhecido: bombardear, entrar e sair de Gaza. O governo corre o risco concreto de atolar-se numa operação militar extensa com o Hamas, sob o custo de perder os cativos israelenses em Gaza.

