Réu do 8/1 morto na Papuda expõe contaminação política dos direitos humanos

Política

Por Felipe Pereira

Morte de preso em 8 de janeiro causa inversão de papéis na defesa dos direitos humanos. Cleriston Pereira da Cunha caiu desacordado durante o banho de sol e agonizou por 40 minutos. O posto médico da Papuda estava fechado.

O que aconteceu

A direita, habitualmente contra melhorias no sistema carcerário, denunciou o caso como uma violação dos direitos humanos. Parlamentares e lideranças bolsonaristas foram ao enterro e houve convocação para protestos no final de semana seguinte.

Já a esquerda abandonou a luta em prol dos direitos humanos nas cadeias e agiu como se nada de errado tivesse acontecido. Políticos e instituições com histórico de denúncias de violações dos direitos dos presos silenciaram.

Não foi o sistema carcerário que mudou, ele continua desrespeitando direitos fundamentais. O que se alterou foi o cenário político.

Especialistas apontam a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro como justificativa para a inversão de papéis nessa área. A reação de cada lado agora depende da orientação partidária da vítima.

Eles também criticam o Judiciário por permanecer alheio aos pedidos de detentos pobres. Além disso, nenhum organizador ou financiador do 8 de janeiro foi preso ou punido.

Direita muda discurso

A direita sempre defendeu que “bandido bom é bandido morto”. A bandeira mudou a partir das invasões às sedes do três Poderes.

A tentativa de golpe resultou na prisão de 2.151 apoiadores de Jair Bolsonaro (PL). Ele passaram a ser tratados como presos políticos por lideranças da direita. A classificação é criticada por especialistas por não refletir a situação de pessoas torturadas ou que pediam a volta da democracia.

Ao invocar os direitos humanos, o bolsonarismo busca dividendos políticos, avalia Carolina Botelho, cientista do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Bolsonaro participou de evento na Câmara na semana passada e usou a imagem de Cleriston. Ele discursou com a família do detento ao seu lado.

A atitude recente contrasta com o ex-presidente que já defendeu a ditadura e homenageou um torturador ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Deputados da oposição também trocaram de papel e enviaram ofícios a autoridades denunciando violações aos direitos humanos após o 8 de janeiro. O documento foi elaborado pela deputada Carla Zambelli, que sacou uma arma e perseguiu um homem. Outros 18 deputados assinaram o documento.

Esquerda se omite

Entidades ligadas aos direitos humanos não se pronunciaram sobre a omissão do Estado na morte do detento.

No dia seguinte à morte de Cleriston, a Anistia Internacional repercutiu a eleição na Argentina. A Conectas Direitos Humanos fez propaganda de uma “feira de ideias”.

A Comissão Arns pediu um tuitaço contra um projeto da bancada do agro. Isso contrasta com atitude recente. Nesta semana, a entidade divulgou nota pedindo a libertação das pessoas presa na sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo que aprovou a privatização da Sabesp.

A professora Vera Chaia classifica como sintoma da politização o silêncio de entidades.

Já o cientista político Eduardo Grin também viu a mudança de discurso. Antes, a esquerda defendia os direitos do preso, independentemente do crime cometido.

Para ele, preocupadas em serem confundidas com apoiadores da pauta bolsonarista, organizações e figuras públicas podem ter perdido o ímpeto de criticar o desrespeito.

Na data da morte de Cleriston, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, também comentava a eleição da Argentina no Instagram. Ela continuou ignorando o assunto nos dias seguintes.

Socorro demorado e sem equipamentos

Cleriston tinha doença cardíaca, diabetes e tomava remédios controlados. Ele já havia desmaiado várias vezes na cadeia. Por isso o Ministério Público Federal tinha recomendado que ele fosse libertado.

Ele tomava banho de sol quando caiu desacordado na manhã de 20 de novembro. Desesperada, a agente prisional enviou mensagens pedindo ajuda.

Era ponto facultativo no Distrito Federal, por isso a equipe estava reduzida na Papuda. Além disso, o posto de saúde se mantinha fechado. Cleriston foi atendido por outros presos.

Ele foi reanimado duas vezes por um detento que é médico. Mas não havia equipamentos para manter Cleriston estável.