Mãe acusada por árbitro nega ato racista em depoimento que retrata ambiente de pressão extrema sobre crianças
Por Carlos Eduardo Mansur
Acusada de racismo durante um jogo de futsal para crianças de 9 anos, realizado no dia 28 de maio, entre Ascaer e Madureira, a mãe de um dos meninos que atuaram na partida deu a sua versão ao ge. Conforme a reportagem publicada na última sexta-feira informava, a defesa apresentada pelo Madureira no TJD da Federação de Futsal alegou que a mulher, mãe de um dos jogadores do clube, carregava uma sacola com vários restos de frutas e que não teve a intenção de atirar uma casca de banana no árbitro Carlos Aquilla, autor da denúncia registrada na 37ª delegacia da Ilha do Governador, zona norte do Rio. A mulher em questão conta que recolheu uma sacola de lixo na arquibancada e a atirou em Aquilla. Ela admitiu que entrou na quadra para atacar o árbitro, mas nega que a motivação tenha sido racismo.
O depoimento dela, transcrito abaixo após uma conversa por telefone, é na verdade o retrato de um ambiente tóxico que testa os limites psicológicos de adultos e crianças. O relato fala em pressão excessiva de treinadores e coordenadores, crianças desestabilizadas e muitas reclamações contra árbitros. Novamente, assim como na reportagem original, nomes serão omitidos para evitar exposição dos menores.
A seguir, o depoimento da mãe do menino de 9 anos. O episódio com o árbitro, aliás, teve como estopim uma cobrança de um lateral.
“Têm acontecido descasos surreais na arbitragem. A gente entende que precisa aceitar, não digo aceitar perder. Neste ponto, meu filho já tem bagagem no futebol e não se abala. Mas esse árbitro estava fazendo coisas absurdas. Não sou muito de ficar gritando, sou de observar meu filho. Não quero que ele me dê milhões, eu o levo para os jogos porque ele gosta de jogar bola. O destino o fez cair nesse mundo louco do futebol aos seis anos e, para mim, era só diversão. Mas, na condição de mãe, é muito sofrimento ver o filho passar por isso. A preocupação é não deixar afetar o psicológico deles, porque o nosso é totalmente destruído. Até digo para a minha mãe que é um mundo covarde e maldoso. A disputa fica muito grande. Pais são loucos de achar que os filhos têm que chegar ao profissional. A chance é zero de uma geração inteira chegar. Mas os pais ficam numa competição horrível que afeta o psicológico de todo mundo.
Sobre os árbitros, errar todo mundo erra. Mas há coisas estrondosas. E aí o seu emocional transborda. Eu vejo o meu transbordar.
Nesse dia, meu filho pegou a bola e foi bater um lateral. Ele posicionou a bola num local e um responsável (comissão técnica) do outro time o puxou, porque falou que ele estava muito na frente. O juiz errou, precisava intervir no momento em que outra pessoa se sentiu à vontade de tocar na criança, mesmo sem machucar.
Meu filho leva isso de boa, porque trabalhei isso na mente dele todos esses anos. Mas o juiz virou na minha cara e disse: “quem sabe sou eu”. Eu me senti afrontada, e após o jogo fui pra voar em cima dele. Tanto meu marido, como o pessoal da Madureira, quando me viram indo voar nele, vieram me segurar. Eu peguei um saco de lixo que estava jogado na arquibancada. Depois é que vi que tinha restos de frutas, lenço umedecido, fralda suja. Peguei esse saco e taquei nele (no árbitro).
Na minha opinião, induziram ele a ir na delegacia fazer boletim. Não fui racista. Não vi que tinha uma casca de banana lá dentro do saco, que estava leve e nem acertou ele, mas espalhou tudo no chão. Alguém que estava lá tirou a foto da casca de banana para induzir o árbitro a denunciar.
Eu errei em cima do erro dele, me excedi por causa do erro do árbitro. Mas está na mão da Justiça. Ver alguém fazendo alguma coisa com meu filho me deixa tocada. Tudo aconteceu num momento em que as crianças não viram, meu filho nem sabe que isso aconteceu.
Um amigo do meu filho, mas que joga em outro time, perguntou: “Tia, você é a mãe do… (nome da criança, que será omitido)?” Disse que sim, e o garoto, chorando, falou que estava com medo de jogar. “Tenho medo de perder, quando a gente perde o tio grita muito e o meu pai briga comigo”. No Madureira é diferente. Meu filho tem vontade de ir ao treino.
O ambiente nos jogos fica tóxico quando chega no menor. Acho que precisa de reeducação de todas as partes. No Madureira, os coordenadores sempre agem para pedir paz. A gente tem essa consciência. Os pais acabam sendo agressivos, eu tirei meu filho de um clube porque o técnico tinha outro trabalho e os treinos eram num horário que obrigavam meu filho a faltar à escola. A escola disse que ia acionar o Conselho Tutelar, então eu o tirei do clube. O técnico ficou com raiva de mim. Num jogo do meu filho contra este clube, o menino estava com bronquite e foi preservado. O coordenador deste clube viu meu filho no banco, passou por ele e falou: “Deixou a gente para tomar chá de cadeira aí?”. Como uma mãe ou um pai ficam? Eu coloco personal, massoterapeuta, treino, para ouvir um coordenador falar isso? A agressão vem lá de dentro também. Tem pais que olham a criança passando e zombam da criança.
Neste último fim de semana, tivemos que dividir arquibancada com a torcida adversária por causa do sol. E eles falavam coisas terríveis para nós. Precisa de reciclagem de árbitros, de uma federação mais atenta e uma reeducação de todos.”
Após a publicação da reportagem, a procuradoria do Tribuna de Justiça Desportiva do Futsal requisitou que fossem incluídos na pauta de julgamentos diversos jogos citados na matéria do ge, mas que ainda não haviam ido a plenário. Além disso, a procuradoria detectou que o relatório de arbitragem do jogo entre SER/Municipal x Heliópolis, para crianças de até 10 anos, não estava completo no site da Federação. Após o jogo, um menino de nove anos, jogador do Heliópolis, relatou em sua conta no Instagram ter sido alvo de racismo de uma torcedora. O Tribunal solicitou o envio da súmula completa da partida.
Já o técnico do time sub-13 da Portuguesa, José Ricardo Sobreira, citado no relatório de um árbitro por ter, supostamente, orientado um menino expulso de campo a não cumprir a decisão da arbitragem, contestou a versão da súmula. Segundo ele, ao dizer “fica aí” para o menino, ele tentava acalmar a criança, que estava nervosa após levar o cartão vermelho e xingar de forma grave o árbitro. Ele diz que não orientava o menino a praticar uma indisciplina e que tentava protegê-lo.

